Há cinco anos a vida de um cuidador de idosos mudou totalmente. Ao fazer uma doação de sangue ele descobriu que estava infectado com o vírus do HIV/Aids. A descoberta foi apenas o início da luta que estava prestes a enfrentar. Ele afirma que o preconceito é o maior obstáculo enfrentado pelos portadores do HIV.
“O maior preconceito veio da minha própria família. Me senti um nada após esta notícia. Pensei inúmeras vezes em tirar minha vida por causa disso. Ainda estou aprendendo a lidar com a realidade”, explica.
Pai de três filhos e casado na época, ele diz que as barreiras do dia a dia tomaram proporções gigantescas que invadiram o local de trabalho. “Eu trabalhava em um posto de gasolina e lá sofri atos de preconceito; não dos meus colegas e do gerente, mas sim do proprietário. Ele chegou a gritar em meio a todos para tomar cuidado comigo pois a doença era contagiosa. Isso me abateu muito”.
A situação vivida pelo cuidador de idosos se repete em vários outros casos em Montes Claros, segundo a presidente do Grupo de Apoio à prevenção e aos Portadores da Aids (Grappa), Célia Rosa. “Infelizmente o tratamento evoluiu, a medicação evoluiu, mas o preconceito continua arcaico. Não evolui”.
O número de casos crescem na maior cidade do Norte de Minas. De acordo com dados divulgados pelo Grappa, em 2015, foram registrados 20 novos casos, no ano seguinte o número cresceu para 26, e até o dia 29 de novembro de 2017 foram registrados 42 novos casos em Montes Claros. A maior parte destas novas infecções é encontrada em jovens, de 16 a 29 anos.
“Falta consciência, falta responsabilidade e amor com o próprio corpo. O mais triste é que não existe mais o grupo de risco, todos estão vulneráveis. E os jovens são displicentes e acreditam que são imunes. Por isso temos que falar sobre a Aids e, principalmente, sobre o uso de preservativo”, afirma a presidente.
Ajuda
O Grupo de Apoio assiste famílias de portadores do HIV/Aids de todo o Norte de Minas. “Temos cadastradas 900 famílias. Temos o projeto Grapinha, que tem 170 crianças que vivem e convivem com portadores do vírus. Precisamos muito da ajuda da sociedade para dar continuidade ao projeto”.
Lei Nº 12.984
Uma lei sancionada em junho de 2014, pela então presidente Dilma Roussef, busca proteger os doentes de Aids e portadores do HIV. Nela estabelece prisão de um a quatro anos para autores de condutas discriminatórias.
O cuidador de idosos, personagem desta reportagem, se ampara nesta Lei para que o antigo patrão seja punido. “Espero que sirva de exemplo para outras pessoas que seguem o mesmo problema e nem sabem de seus direitos”.
Segundo o advogado que acompanha o caso, Cláudio Antunes de Sá, a sociedade ainda não está preparada para proteger as pessoas que convivem com a doença. “É a mesma coisa da Lei Maria da Penha. No início não tinha aparato que ajudasse a acolher as vítimas. Isso é enfrentado pelas vítimas portadoras do HIV e doentes de Aids. As pessoas envolvidas ainda não estão preparadas para lidar com o caso”.
Via G1
